Durante a visita inaugural da Academia de Aldeia ao piloto de Infesta (Município de Monterrei, Ourense, Galiza), um dos temas que abordámos com os alunos do Mestrado em Planeamento e Gestão Territorial da Universidade de Santiago de Compostela (USC) foi a importância das aldeias.

Numa altura em que o território rural enfrenta desafios ambientais, sociais e económicos cada vez mais complexos, é necessário recuperar uma ideia essencial: as aldeias não são estruturas isoladas, mas células de um sistema muito mais amplo, como é o território. O que acontece no seu entorno (nas montanhas, nos vales, nos mosaicos agrícolas, nas zonas em transição entre usos) determina em grande medida a sua resiliência e o seu futuro.
O abandono agrícola e florestal não significa apenas o desaparecimento de uma atividade económica, mas uma profunda transformação da estrutura territorial. Quando se perde o cuidado com a terra, criam-se condições que favorecem a continuidade e a acumulação de combustível, o aumento do perigo de incêndios, a perda de biodiversidade funcional, a fragmentação das dinâmicas comunitárias e o desaparecimento dos conhecimentos que historicamente sustentaram o meio rural.
As aldeias funcionam como verdadeiros núcleos de atividade: são simultaneamente espaços de habitação e convívio, locais onde se tomam decisões coletivas e se exerce a governação comunitária, portas de entrada no território para visitantes e novos habitantes, elos entre a atividade económica, o património e a paisagem, e pontos estratégicos para ativar o tecido produtivo. Entender a aldeia como uma célula implica assumir que a sua vitalidade depende da matriz territorial que a envolve e que, inversamente, o território precisa de aldeias vivas para manter a sua funcionalidade ecológica e social.
Um dos grandes desafios contemporâneos é não confundir o aspecto visível de uma paisagem com a sua saúde real. Um território pode parecer ordenado e produtivo e, no entanto, estar sujeito a processos de degradação silenciosos; também pode parecer caótico ou em regressão e, ao mesmo tempo, abrigar dinâmicas de recuperação, conhecimentos resistentes e oportunidades para o futuro. Por isso, é essencial aprender a olhar para o território para além das primeiras impressões, compreendendo o funcionamento profundo dos sistemas agroflorestais, sociais e económicos que sustentam a vida das aldeias e garantem a sua continuidade.
Entender a aldeia como uma célula implica assumir que a sua vitalidade depende da matriz territorial que a envolve e que, inversamente, o território precisa de aldeias vivas para manter a sua funcionalidade ecológica e social.
Se as aldeias são células de um sistema maior, a resiliência deve ser construída em três escalas complementares.
Na escala territorial, é necessário recuperar mosaicos funcionais, reativar a atividade agrícola e garantir a continuidade ecológica que sustenta os processos vitais da paisagem e reduz os riscos ambientais.
No perímetro das aldeias, é necessário ativar usos produtivos e soluções baseadas na natureza, criando ao mesmo tempo espaços de proteção contra incêndios que funcionem como faixas vivas, dinâmicas e cuidadas.
No interior dos núcleos, a prioridade é fortalecer a vida comunitária, consolidar estruturas de governança e ampliar a capacidade das aldeias para acolher novas dinâmicas sociais e económicas.
A articulação destas três escalas permite reconstruir territórios vivos e sustentáveis, capazes de se adaptar às transformações presentes e futuras.
As aldeias, com as suas escalas humanas e os seus ritmos próprios, têm a capacidade de regenerar o território a partir de dentro, desde que contem com apoio, cuidados e uma visão partilhada. São espaços privilegiados para inovar em sustentabilidade, para revitalizar a atividade, para recuperar o património e para reforçar os laços comunitários.
As aldeias lembram-nos algo essencial: o território é um organismo vivo, cada célula é importante.